Bloco INDIA na Índia: unidade de fachada, rachaduras profundas — DMK e AAP fogem de reunião e expõem crise na oposição
A aliança oposicionista INDIA exibiu unidade nos protestos parlamentares, mas DMK e AAP faltaram à reunião estratégica, revelando divisões que…
A cena de protesto que esconde uma aliança em frangalhos
Na sessão de monções do Parlamento indiano, iniciada em julho de 2026, o bloco oposicionista INDIA — acrônimo para Indian National Developmental Inclusive Alliance — tentou projetar uma imagem de coesão diante do governo do primeiro-ministro Narendra Modi. Deputados de diferentes partidos marcharam juntos nos corredores da Lok Sabha, ergueram cartazes e vociferaram contra o que chamam de omissão do governo em dois escândalos em particular: o vazamento de provas de exames nacionais e o suposto desvio de doações no templo de Ayodhya. A imagem era de força. A realidade, porém, contava uma história bem diferente.
Enquanto as câmeras registravam o protesto coletivo, dois dos partidos mais relevantes da coalizão — o DMK (Dravida Munnetra Kazhagam), de Tamil Nadu, e o AAP (Aam Aadmi Party), de Delhi e Punjab — simplesmente não compareceram à reunião dos líderes parlamentares do bloco, realizada na câmara do presidente do Congresso Nacional Indiano, Mallikarjun Kharge. A ausência não foi acidental: ela sinaliza tensões que vêm se acumulando há meses e que agora ameaçam a viabilidade da aliança como força política organizada.
Por que DMK e AAP estão na periferia da aliança?
O distanciamento do DMK em relação ao Congresso não é novidade, mas ganhou contornos mais nítidos em torno de duas questões sensíveis. A primeira é o polêmico Projeto de Lei de Delimitação, que propõe redesenhar os limites dos distritos eleitorais com base no último censo — uma medida que, na prática, beneficiaria estados do norte do país, mais populosos, em detrimento dos estados do sul, onde o DMK tem seu principal eleitorado. A segunda é a disputa em torno da barragem de Mekedatu, no rio Cauvery, onde o governo estadual do Congresso em Karnataka e o DMK de Tamil Nadu têm posições diametralmente opostas. Nessa segunda-feira específica, enquanto deputados do bloco INDIA protestavam na Lok Sabha, parlamentares do DMK faziam um protesto paralelo e independente — contra o governo do Congresso em Karnataka. A ironia não passou despercebida.
Já o AAP carrega suas próprias mágoas históricas com o Congresso, especialmente após a debacle eleitoral em Delhi, onde os dois partidos não conseguiram selar um acordo de aliança e acabaram dividindo votos que beneficiaram o BJP. A ausência do partido na reunião foi lida por analistas como uma mensagem deliberada de que Arvind Kejriwal e seus aliados não estão dispostos a se subordinar à liderança do Congresso dentro do bloco.
A agitação do CJP: o pomo da discórdia que ninguém esperava
Se as divisões em torno da delimitação e de questões regionais já eram conhecidas, um novo elemento entrou em cena para complicar ainda mais a coesão do bloco: a agitação liderada pelo Cockroach Janata Party (CJP), movimento de ativistas estudantis encabeçado por Abhijeet Dipke e apoiado pelo ambientalista e ativista Sonam Wangchuk, que foi hospitalizado após 20 dias de greve de fome no Jantar Mantar.
O CJP mobilizou estudantes em torno da pauta do vazamento de exames, tema que o próprio bloco INDIA tentava usar como bandeira. O problema é que o Congresso passou a ver o movimento com desconfiança crescente. Na reunião de líderes parlamentares, o deputado e estrategista do Congresso Jairam Ramesh teria deixado claro aos aliados que o partido acredita que o CJP é, na verdade, uma criação orquestrada pelo BJP e pelo RSS para desviar a narrativa estudantil das mãos da oposição tradicional. A instrução implícita era: não legitimem o movimento visitando os manifestantes no Jantar Mantar.
O resultado foi uma divisão visível até dentro do próprio bloco. Deputados do Samajwadi Party (SP), do AAP e dos partidos de esquerda ignoraram a orientação do Congresso e foram pessoalmente ao acampamento dos ativistas do CJP. O Congresso, por sua vez, ficou de fora. A decisão final da reunião foi focar os protestos parlamentares nos temas do vazamento de exames e do desvio no templo de Ayodhya — sem qualquer menção a uma visita conjunta aos manifestantes do CJP.
Quem tem razão sobre o CJP?
A questão é genuinamente complexa. Líderes não-congressistas dentro do bloco, em conversas reservadas, apontam que, se o CJP ganhou tração e roubou a pauta estudantil da oposição convencional, parte da culpa recai sobre o próprio Congresso. O partido havia programado uma série de conclavos estudantis contra o vazamento de exames em cidades como Prayagraj, Patna e Delhi — todos cancelados. E Rahul Gandhi, em vez de liderar pessoalmente a mobilização nas ruas, priorizou uma viagem ao exterior. O vácuo deixado pelo Congresso, argumentam esses aliados, foi preenchido pelo CJP.
TMC e Shiv Sena (UBT): presença diminuída, sinal de enfraquecimento
Outro dado que não passou despercebido foi o tamanho das delegações do Trinamool Congress (TMC) e do Shiv Sena (UBT) na reunião. Ambos os partidos, que já foram pilares da aliança, chegaram com bancadas notavelmente reduzidas — reflexo de derrotas eleitorais recentes e de uma influência parlamentar em declínio. A presença encolhida desses grupos não é apenas simbólica: ela reduz o peso numérico do bloco na Câmara Baixa e compromete sua capacidade de obstruir ou pressionar a pauta legislativa do governo.
Supriya Sule, do NCP-SP (facção do Partido Nacionalista do Congresso liderada por Sharad Pawar), também esteve ausente dos debates públicos, alegando problemas nas cordas vocais. O timing gerou especulação entre aliados, especialmente porque o NCP-SP, assim como o DMK, tem posição ambígua sobre o Projeto de Delimitação.
O que está em jogo: a agenda legislativa do governo
A fragmentação interna do bloco INDIA tem consequências práticas imediatas. O governo Modi deve apresentar ao Parlamento, nesta sessão, um conjunto de projetos polêmicos, incluindo um projeto de lei que criminalizaria o desrespeito ao hino nacional. Para barrar ou ao menos constranger esse tipo de legislação, a oposição precisa de coordenação, disciplina de voto e presença constante nas sessões. Tudo aquilo que, neste momento, o bloco demonstra ter dificuldade em garantir.
Analistas políticos ouvidos pela imprensa indiana destacam que o bloco INDIA foi concebido, em 2023, como uma resposta à percepção de que nenhum partido isolado seria capaz de desafiar o BJP nas urnas. A lógica era simples: somar forças regionais sob uma coordenação mínima. O que se vê agora é que essa coordenação mínima está sob estresse. As divergências sobre delimitação, sobre como lidar com movimentos sociais como o CJP, sobre disputas regionais internas — tudo isso corrói a coesão que a aliança precisa para funcionar.
Perspectivas: o bloco sobreviverá à sessão de monções?
A expectativa, segundo fontes próximas à liderança do bloco, é que os protestos em torno do vazamento de exames e do escândalo de Ayodhya continuem por mais alguns dias antes que qualquer tentativa de normalizar o funcionamento parlamentar seja feita. Mas a questão estrutural permanece sem resposta: como uma aliança de mais de 25 partidos, com interesses regionais frequentemente conflitantes, pode manter coerência suficiente para funcionar como oposição efetiva no Parlamento?
O episódio desta segunda-feira — com DMK e AAP ausentes, com o Congresso em rota de colisão com aliados sobre o CJP, com bancadas encolhidas de TMC e Shiv Sena — é um retrato fiel das dificuldades que o bloco INDIA enfrenta. A unidade exibida nas fotos de protesto pode servir para consumo midiático imediato. Mas, nos bastidores, as rachaduras são profundas o suficiente para levantar dúvidas sérias sobre o futuro da coalizão como projeto político de longo prazo.
Para quem acompanha a política indiana, o cenário é familiar: grandes coalizões oposicionistas na Índia têm um histórico de se fragmentar sob o peso das ambições regionais e das rivalidades entre líderes. O bloco INDIA, nascido com a promessa de ser diferente, parece estar seguindo o mesmo roteiro.